A última pesquisa feita sobre o bullying nas escolas da região do ABC foi realizada pela Universidade de São Caetano do Sul (USCS), em 2019, e sugeriu que dois alunos sofrem intimidação ou violência física todos os dias na rede municipal de ensino do ABC. A falta de informações oficiais pelas prefeituras é preocupante, já que a maior parte dos casos de agressão no ambiente escolar são subnotificados, o que dificulta a tomada de ação por parte dos educadores dos municípios. O tema se torna cada vez mais relevante por conta das recentes tragédias ocorridas em escolas, como a da professora Elisabeth Tenreiro, assassinada por um aluno de 13 anos, dentro da sala de aula, na escola estadual Thomazia Montoro, na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo, no dia 27 de março. Este foi o 9o ataque a escolas no Brasil apenas nos últimos oito meses.
Ainda de acordo com o estudo da USCS, 419 alunos da rede municipal foram vítimas de bullying na região, mas o tema não costuma aparecer nos projetos educacionais. Em São Bernardo, a secretaria de educação garante, por meio de nota, que a rede municipal é formada por uma equipe técnica de psicólogos que orientam as famílias sobre a situação, além do programa Escola de Pais, que busca informar as famílias sobre o papel do colégio e o desenvolvimento da criança. O município é responsável por atender crianças do ensino infantil e do 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental I, no entanto, a prefeitura de São Bernardo não informou os dados referentes ao bullying. Santo André e São Caetano não responderam até o fechamento desta matéria, assim como o Governo do Estado de São Paulo.
Desde 2021, o município de Ribeirão Pires possui o APSE (Apoio Psicossocial Escolar), projeto que busca tornar o ambiente escolar mais saudável. A partir de sua criação até 2022, foram registrados 900 relatos feitos por alunos, sendo a maioria deles sobre o bullying. Dos 678 atendimentos prestados no ano passado, 34,6% foram a respeito de questões comportamentais e 26,8% sobre ansiedade.
Para Clovis Francisco, coordenador pedagógico de uma escola estadual em São Paulo, a conscientização e a criação de um ambiente positivo nas escolas são as melhores maneiras de prevenir problemas, além de comentar sobre a atuação escolar para incentivar os alunos a comunicarem casos de violência. “Sempre orientamos os estudantes para que procurem algum adulto para notificarem um caso de bullying, que conversem com o “agressor” dizendo o quanto incomoda a situação e por último, conversem com alguém da sua família para buscar apoio”.
Francisco ainda conta que as escolas devem tomar medidas como rodas de conversa, conscientização e orientações aos pais. “Os casos podem ser notificados de várias formas, pela própria pessoa que está sofrendo, que procura adultos para relatar, ou até mesmo por funcionários e professores”, diz o coordenador pedagógico.
A psicóloga e psicopedagoga Arlete dos Santos, de São Bernardo, comenta que o bullying pode gerar prejuízos imensuráveis no desenvolvimento de uma pessoa. “Esse tipo de violência pode até causar transtornos sociais, fobias, agressividades, ansiedade e depressão”. Arlete ainda comenta que esse comportamento se tornou normatizado. “Banalizam a conduta abusiva e desrespeitosa da sociedade para com o próximo, o que faz essas atitudes repercutirem de geração em geração”.
Para Arlete, a identificação de casos de violência depende muito dos pais e dos professores. “Uma das características do bullying é que a pessoa se sente extremamente ameaçada e dificilmente vai falar sobre isso”. A psicóloga fala também que alguns sinais no comportamento da criança ou do adolescente podem demonstrar essas situações, como a apatia, tristeza, isolamento e medos. “A pessoa se recusa a participar de atividades que antes participava sem problemas, como ir para a escola, sair com os amigos, se isola da família, evita conversas, eventos sociais e às vezes se torna até agressiva”.
A psicóloga comenta que geralmente o indivíduo que pratica o bullying é uma pessoa que não sabe lidar com suas emoções. “São indivíduos que sofrem violência física ou verbal no seu ambiente familiar, crianças que vêm de lares desestruturados ou pais agressivos e extremamente autoritários, e acham lá fora um meio de extravasar aquela raiva e aquela frustração contida através da intimidação”.
Arlete ainda comenta que a criação da família é crucial para evitar situações de violência em outros ambientes. “Os pais precisam entender que a educação baseada em castigos físicos e em palavras agressivas não fortalecem o indivíduo”, diz. De acordo com a psicóloga, essas situações só criam pessoas desestruturadas emocionalmente, que não sabem reconhecer as próprias emoções e que precisam se autoafirmar através do bullying. “Portanto, é de extrema importância que as escolas preguem o respeito e a cooperação entre os estudantes.”
O psicólogo Leonardo Bourroul, de São Paulo, conta que é preciso identificar se o episódio de bullying já acontece ou tem potencial para acontecer. “Devemos pensar primeiro em um aspecto de prevenção, mas se o episódio já está em andamento, devemos acolher a vítima e o agressor”. Bourroul comenta que a forma de ajuda da psicoterapia vai depender das experiências de vida do paciente atendido. “É preciso entender quais foram as situações que desencadearam esse comportamento e ressignificar essa experiência, além de promover a empatia”.
Para o psicólogo, o papel dos pais é fundamental na identificação das agressões e na participação no processo de intervenção. “Será necessário a busca de um profissional de saúde mental para atender a criança, como um psiquiatra e um psicólogo”. Bourroul comenta que os familiares também devem passar por uma orientação. “Isso tudo visando uma melhor educação e prevenção desses episódios, seja por parte do agressor, ou por parte da vítima”, conclui o psicólogo.
*Esta reportagem foi produzida por estagiários da Redação Multimídia do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.





